A história que as famílias contaram às crianças. Clique nas páginas ou use as setas para a folhear.
Salas dos 3 anos · Braga«Pão por Deus,
fiel de Deus,
bolinho no saco,
andai com Deus!»

Na aldeia de Vale das Nogueiras, a manhã de 1 de novembro acordou com cheiro a castanhas assadas e a broa acabada de sair do forno.
O Pedro foi o primeiro a levantar-se. Tinha o saquinho de pano azul que a avó lhe cosera, com uma estrela bordada a linha amarela. Correu a bater à porta do Miguel, que já estava à espera no quintal, com um saquinho verde e o gorro enfiado até às orelhas.
«Vamos buscar o Joaquim e a Carminho!», disse o Miguel. «Se chegarmos cedo, a dona Sara ainda tem os bolinhos quentes.»
O Joaquim morava ao fundo da rua e apareceu a comer uma maçã, porque, dizia ele, ninguém pede pão por Deus de barriga vazia. A Carminho, a mais nova dos quatro, trazia um saquinho cor-de-rosa, tão pequenino que mal lá cabia uma noz.
«É pequeno», disse ela, um pouco envergonhada.
«Os saquinhos pequenos enchem-se mais depressa», respondeu Pedro, e a Carminho sorriu.
Os quatro amigos subiram a rua de mãos dadas. Na primeira porta, a da dona Sara, cantaram em coro: «Pão por Deus, fiel de Deus, bolinho no saco, andai com Deus!» A dona Sara riu-se e deu a cada um, um bolinho dourado, ainda morno, embrulhado num guardanapo.
Na casa do senhor Américo, o carpinteiro, receberam nozes e uma romã para cada um. No café do largo, a dona Rosa deu-lhes rebuçados de mel. E na casa da professora Vanessa ganharam castanhas e uma lição: «Sabem porque se diz "por Deus"? Porque antigamente quem tinha pouco pedia e quem tinha alguma coisa partilhava. Não é só para encher o saco. É para lembrar que ninguém deve ficar sem nada.»
Os meninos ficaram a pensar naquilo enquanto caminhavam.
Foi então que passaram pela última casa da aldeia, uma casa pequena, de janelas fechadas. Lá vivia o senhor Augusto, sozinho. Ninguém tinha batido à porta dele.
«Ele não deve ter bolinhos para dar», disse o Joaquim baixinho.
O Miguel olhou para o saquinho cheio. O Pedro olhou para o dele. A Carminho apertou o seu saquinho cor-de-rosa contra o peito e, sem dizer nada, foi bater à porta.
O senhor Augusto abriu devagar, admirado.
«Meninos... eu hoje não tenho nada para vos dar», disse ele, triste.
«Nós sabemos», respondeu a Carminho. «Por isso é que viemos nós dar.»
E despejou o saquinho cor-de-rosa nas mãos dele: um bolinho, três nozes e dois rebuçados de mel. O Pedro deu-lhe uma romã. O Miguel deu-lhe as castanhas. O Joaquim, que já tinha comido metade das coisas pelo caminho, deu-lhe o bolinho da dona Sara, que guardara para o fim.
O senhor Augusto ficou calado um bocadinho. Depois sorriu, com os olhos brilhantes, e disse: «Esperem aí.»
Voltou com uma caixa de lata antiga. Lá dentro havia figos secos que ele próprio tinha posto a secar ao sol no verão. «São da minha figueira», explicou. «Os figos sabem melhor quando são partilhados.»
Sentaram-se os cinco nos degraus da porta, ao sol de novembro, a comer figos e a ouvir as histórias que o senhor Augusto contava de quando ele próprio era menino e andava pelas mesmas ruas, com um saco de serapilheira, a pedir pão por Deus.
Ao fim da manhã, os saquinhos estavam quase vazios. Mas nenhum dos quatro amigos se queixou.
Nessa noite, ao deitar-se, a Carminho disse à mãe: «O meu saquinho era o mais pequeno, mas foi o que encheu mais.»
«Encheu o quê?», perguntou a mãe.
«O coração do senhor Augusto», respondeu ela, e adormeceu.
E desde esse ano, no Vale das Nogueiras, a primeira porta a que as crianças batem no dia do Pão-por-Deus é sempre a do senhor Augusto.
Fim
«O meu saquinho era o mais pequeno, mas foi o que encheu mais.»
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